domingo, 7 de março de 2010

Chiado I


(foto: Nuno Lopes)

(…)
Mário ligou-me a pedir que fosse a casa dele o quanto antes. Não me disse porquê, desligando o telefone quase de seguida, como se quisesse evitar que eu negasse ou fizesse qualquer pergunta.
Fiquei aflita, tinha medo que Alice tivesse algum problema. Dirigi-me o mais depressa que podia para o autocarro, apesar de eles serem poucos neste dia, mas Mário deve ter reflectido que me teria causado alguma ansiedade e mandou-me uma mensagem “Desculpa se te assustei. Só te quero mostrar algo. Alice está bem e eu também”.
A ansiedade deu lugar a promessa de guerra, mas o bichinho da curiosidade chegou para atenuar a raiva súbita. O que ele quereria me mostrar que fosse urgente?
Cheguei ao prédio do Mário e enquanto me dirigia para a sua porta, só pensava se haveria de lhe sorrir quando me abrisse a porta ou se deveria preparar a carteira para espanca-lo. Gostei da segunda opção, mas iria perder tempo para perceber o que se passava e eu estava curiosa demais.
Mário abriu a porta com cara igual a de uma criança quando sabe que fez algo de mal e usou esse olhar meio inocente, contra um possível atentado da minha parte. Conseguiu. O quanto eu começava a odiar o olhar daquele lisboeta.
- Que se passa?
-Vamos sair. – disse Mário enquanto pegava nas chaves ao lado da porta e saia com alguma rapidez, puxando-me com ele.
-Mário explica-me…que se passa?
-Já vais ver.
- Isso ajuda muito…é bom ou mau? - Mário reflectiu por um momento, deixando até de andar, virou-se para traz e olhou-me nos olhos um pouco sério e pensativo. Percebi naquele momento que ele estava nervoso.
-Mário…
- Vais ser tu a responder-me a isso. Quero e preciso que sejas tu a responder.
- Ok. – Agora estava definitivamente nervosa.
Estávamos a andar á cerca de 10m, estávamos ambos em silencio, o Mário uns centímetros mais á frente. Ele andava depressa, como se o que ele me fosse mostrar pudesse desaparecer, mas não me atrevi a perguntar nada.
As ruas estavam mais desertas que o habitual, não fosse hoje véspera de Natal. Acho que era o dia com menos movimento, desde que vim para Lisboa. Estava frio, mas as luzes de Natal estavam magnificas e davam um ambiente acolhedor e mágico á cidade. Uma verdadeira época de Natal.
Deixei-me envolver neste ambiente natalício e a mão de Mário na minha de repente tornou-se mais quente. Fixei-me por momentos nas nossas mãos entrelaçadas.
Nesse mesmo instante Mário largou-me a mão, fazendo-me voltar á realidade. Ele parou de costas para mim em silêncio. Presumi que tivéssemos chegado ao local, mas ainda estávamos na rua. Percorri a rua com o olhar e percebi que estávamos num local conhecido. O Chiado. A rua estava diferente desde a ultima vez que vim, mas não estava a perceber no quê.
-Mário?
- Ontem, estava a falar com a Leonor…-fez uma pausa, enquanto parecia procurar as palavras certas, ainda que de costas para mim.
-e ela estava a desenhar. De inicio não reparei no quê, até ela acabar e entregar-mo. Eram três pessoas e um cão.

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